sexta-feira, 21 de maio de 2010

Rotina


Por Adílson Silva.

Hoje eu levantei bem cedo
Tomei o meu café, e me olhei no espelho.
Fiz a mesma reflexão que qualquer um faria
Novamente vai começar um outro dia

Será que vai ter alguma mudança
Algo diferente que me dê mais confiança
Com certeza não, o que é mais previsto.
Seria um bom dia maquinado com um sorriso

O mais simples é se acostumar
Deixar o tempo passar
Porque mesmo que não queiras acreditar
Amanha tudo vai recomeçar

Quem sabe alguma hora dessas
Haja uma mudança entre essas arestas
E possivelmente eu e você
Teremos algo para poder nos engrandecer

Já esta chegando o desfeche desse dia
Baterei o meu ponto e estarei de saída
Há apenas uma coisa que me inquieta
O fato de saber que amanha tudo recomeça

segunda-feira, 19 de abril de 2010

El Tío de la mina*



Tradução livre por Raphael Carmezim

Querido Tio.

Nesta fotografia, captada no interior da mina, se destaca tua estátua de argila em meio às oferendas que te deixaram os mineiros, os quais, sentados nos troncos das árvores da galeria, mascaram a coca em tua presença; suplicando-te que lhes conceda o filão mais rico de estanho e lhes proteja das enfermidades e dos perigos. As garrafas de aguardente são para aplacar a tua sede e render-te culto, bem como para celebrar os acontecimentos e cultuar a Pachamama aspergindo álcool ou cachaça sobre a Mãe Terra para essa divindade Andina que não se vê, mas que guarda as riquezas em suas entranhas.
Se te vejo de perto, escrutando os detalhes de tua imagem, vejo que tens o nariz e a boca enegrecidos pela fumaça dos cigarros, os olhos redondos como bolas de cristal, os braços ligeiramente flexionados e o corpo coberto com misturas e serpentinas. Na realidade, se falamos com propriedade, diríamos que tens o rosto mais desfigurado que o Fantasma da Ópera e o corpo mais malfeito do que de um monstro com rabo e chifres. Talvez por isso tu vivas desterrado na zona mais sombria e profunda da mina, cujas galerias não são o reino de Hades nem o inferno de Dabtes, senão um recinto tenebroso somente conhecido pelos trabalhadores do subsolo, onde os devotos te temem mais do que à Deus e os supersticiosos te veneram mais que à Virgem da Candelária.
Por outro lado, segundo a versão católica, tu és o anjo celestial que, por haver se rebelado contra a vontade suprema de teu Criador, foi condenado a sofrer um castigo eterno entre as chamas do inferno. Mas tu, que é galardoador de malefícios e benefícios, não chegaste nem sequer à porta do Purgatório; mas preferistes amalgamarte com o Huari e o Supay da mitologia Andina; fazer-te chamar Thiula e meter-te nos esconderijos da mina, em cujas trevas instalastes teu trono e teu reino. Desde então és o dono dos minerais e o amo dos mineiros, os quais, em atitude de submissa veneração, te rendem cortesias ao entrar e ao sair da mina, tributando-te folhas de coca, cigarros e garrafas de aguardente, sem maior intenção que a de te manifestar sua fé e seu carinho, e pactuar contigo a sorte de um ritual milagroso. Não obstante tu seres ambivalente, mescla de Bem e de Mal, exerces uma influência decisiva sobre a vida dos habitantes do altiplano, de onde te atrevestes a medir tuas forças satânicas com as forças divinas de Deus.
Nas vésperas de Carnaval, os mineiros colocam oferendas eu tua cova, adornam teu pescoço com serpentinas e arrojam punhados de colares e misturas ao redor do teu trono, no qual tu estás sentado, vendo como te olham o falo largo, grosso e ereto. Depois te disfarças de Lúcifer e partes da mina, com a alegria de bailar na fraternidade dos demônios, bebendo os tragos que te oferecem as gentes e namorando as raparigas mais formosas que, em honra a tua esposa perversa (La Chinasupay), se disfarçam de diabas: botinas de saltos altos, saias curtas, blusas vaidosas e delgadas e vestidos franzidos com lagartos, aracnídeos ou batráquios.
As diabas têm máscaras com olhos saltados e pestanas largas, pômulos de granada e lábios sensuais, tão sensuais que, além de esboçar um sorriso tentador, deixam entrever fileiras de dentes engastados em pedras preciosas.
Tu bailas ao compasso da música de tambores e flautas, arrastando o ar com tua capa de veludo e teu cetro de comando, enquanto as diabas, acossadas pelos ursos e condores, flertam ao redor do Arcanjo São Miguel, ensinando o contorne das pernas e cobrindo suas tetas com suas cabeleiras recolhidas em tranças.
Teu traje de Lúcifer, que parece feito de luzes e de sonhos, é uma das vestes mais invejáveis do carnaval de Oruro, onde todos te vêem e te admiram com o mais profundo espantado. Tua capa de veludo, luxuosamente bordado com fios de ouro e prata, está adornada com víboras, lagartos de dragões; tua saia e teu peitilho, salpicado de botões, lantejoulas e cristais, tem figuras ornamentadas com deslumbrante pedraria; tuas botas e tuas luvas luzem realces de sapos, aranhas e escorpiões; enquanto as calças que levas “ao colarinho”, confundindo-se com sua vasta cabeleira, são adornos que flutuam no ar como ramalhetes de flores; tua máscara, deformada até o limite do horror, tem o nariz deformado, as orelhas pontiagudas e os dentes ferozes; teus olhos, grandes e instáveis como o de um camaleão, desprendem cores vivas durante o dia e luzes fosforescentes à noite. E para infundir medo e respeito entre os seus súditos, levas uma serpente de três cabeças entre os chifres alambicados de tua testa.
Passado o carnaval, em cujo âmbito maravilhoso te entregas por completo ao baile, ao amor e ao álcool, voltas a entrar nas trevas das minas, onde não és mais o Lúcifer, senão o El Tio protetor dos mineiros. Eles consideram-te o sincretismo cultural entre a religião católica e o paganismo ancestral, não só porque és parte de uma lenda que gira em torno da mina e seus assuntos, mas também porque és um ser mítico capaz de escravizar e liberar aos homens com teus poderes mágicos.
Ainda agora, quando volto a contemplar a tua imagem, tenho a horrível sensação de que me persegues como se fosses a minha própria sombra; às vezes estás mais perto de mim que Mefistófeles de Fausto e sinto que queres fazer-me cair em tentação, induzindo-me a cometer pecados horrorosos, dos quais não me salvaria nem a morte. Assim mesmo, no misterioso labirinto dos teus sonhos, assumo a tua imagem para falar com voz de diabo, como si de verdade existisses na realidade e não somente na fantasia dos que, acossados pelo medo e pela superstição, te imaginam mais perigoso que o dragão e mais feroz que o Minotauro, metade besta e metade humano.

Texto do escritor Victor Montoya disponível em: http://www.margencero.com/montoya/montoya_tio_film.html.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Passos na chuva


Por Adílson Silva.

Lá vem a chuva cobrir tudo
Lavar as impurezas dessa terra
Restaurar o que se perdeu
E produz um novo mundo

Nela lembro-me das tristezas
Escondidas entre as lagrimas e gotas
Para que não vissem, em minha face.
As razoes verdadeiras

No meio fio em sua companhia, sentei.
Pensei na vida que passou
E me arrependi amargamente
De todas as coisas que ia fazer, mas hesitei.

Eu te conheci na tempestade
Vi seu rosto perante os ventos
Perfeitamente delineado pela água
Que até hoje me traz saudade

Mas também foi na chuva que partiste
Deixando-me a míngua
Sem qualquer explicação a dar
Escondestes na nevoa e sumiste

Mesmo assim ainda apreciarei a chuva
No entanto meus passos são lentos
O que me faz permanecer
O máximo possível em uma penumbra

terça-feira, 30 de março de 2010

Minha primeira tortura



Por Josy Llopes

Como toda criança peralta e com pouco espaço para brincar, as ruas e calçadas próximas tornam-se verdadeiros centros de idéias e brincadeiras. Para compor o cenário, uma árvore frondosa encontrava-se em frente a minha casa. Certamente você conhece os "soldadinhos" e "punha-mesas", hoje quase extintos, mas que fizeram a alegria de tantas crianças.
Éramos um grupo de três meninas. Minhas delicadas amigas não imaginavam o sofrimento a que eu submeteria aqueles pobres insetos. Enquanto elas cantavam, eu aprisionava um lindo louva-a-deus amarelo, com fios retirados de um ioiô. Caro leitor, peço-lhe piedade. Não me denuncie aos órgãos de proteção aos louva-a-deus. Fui uma criança peralta, apenas isso.
Escondi o meu tesouro em uma ponta da calçada. Ainda posso lembrar-me da cara do inseto clamando por liberdade. Resolvi impor a minha liderança. Arranquei as patas dianteiras. Aqueles olhinhos... Se pudessem falar, diriam: "Que menina má! Você pagará pelos seus pecados quando comandarmos o mundo." Depois experimentei as patas traseiras. Plinct! Plact! Foram-se duas patas. Já terminaria o serviço quando minhas amigas perguntaram o que eu estava fazendo. Não deu tempo. A mais novinha das amigas pisou no meu objeto de tortura... Tirou-lhe a vida... Eu deveria tê-lo realizado.
O meu prisioneiro evadiu com a morte! Culpei a amiga por tamanha atrocidade. Ela chorou, coitada. Eu mal sabia que a vida imporia a mim suas próprias torturas.

sábado, 13 de março de 2010

Sarajevo Revisited



Por Filipe Oliveira.

Um senhor de longos cabelos grisalhos entra na corte com um ar aparentemente relaxado e jovial, logo em seguida brinca com alguns presentes antes de tomar seu lugar no julgamento. Para algum desavisado, este poderia ser mais um caso de sonegação de impostos ou um litígio envolvendo fraude na previdência social se não estivéssemos falando de Radovan Karadzic e o local do julgamento não fosse o Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia (TCII).
O ex-presidente sérvio-bósnio é acusado de inúmeros crimes cometidos durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) dos quais merecem ser mencionados assassinato, extermínio, perseguição e deportações ilegais de mulçumanos e croatas da Bósnia-Herzegovina. O episódio mais famoso do conflito foi o genocídio cometido contra os mulçumanos na cidade de Srebrenica na qual mais de 8.000 pessoas foram mortas e outras milhares feridas, por conta da política de limpeza étnica que o governo de Karadzic liderou em nome da pretensa criação da “Grande Sérvia” na região.
Além deste triste capítulo na história dos Bálcãs, ele também é lembrado por ter autorizado o ataque a população civil durante o cerco de 43 meses a cidade de Sarajevo. Estima-se que o número de mortos tenha chegado a 10.000 pessoas, sem falar no imenso número de feridos.
O processo, que se arrasta desde 2008 quando o ex-líder sérvio foi preso em Belgrado, após passar treze anos foragido, enquanto se passava por um especialista em medicina alternativa com o falso nome de Dragan Dabic, foi retomado nas últimas semanas. O acusado dispensou um advogado para sua representação na corte, preferindo que ele próprio fizesse sua defesa no julgamento.
Sua atuação perante o tribunal tem sido tênue, ora argumentando que a atuação da Bósnia durante o conflito foi “justa e sagrada”, baseada apenas no princípio da autodefesa, ora negando sua participação no conflito, dizendo que os massacres perpetrados nas duas cidades fora fruto de armação dos mulçumanos bósnios; na cidade de Srebrenica os mulçumanos teriam atirado contra si próprios e usado corpos da população local que estavam em valas para aumentar o número de mortos, e que em Sarajevo tudo não passou de uma estratégia para atrair a intervenção estrangeira por meio de tropas da OTAN.
O julgamento foi novamente adiado pelo juiz O-Gon Kwon para que se analise o recurso apresentado pelo réu para o adiamento do processo. Espera-se que desta vez a audiência tenha um resultado diferente do julgamento de Slobodan Milosevic, cancelado após a morte do líder sérvio em 2006.
Ainda que pequeno, o julgamento e a devida punição do alcunhado “Carniceiro dos Bálcãs” é um importante passo rumo à amenização dos conflitos que têm marcado a região desde o século XV.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Japonês papa chibé



Por Adílson Silva

Aproveitando a efeméride, na qual se comemorou 80 anos de imigração japonesa na Amazônia, aconteceu no Hangar Centro de Convenções e Feiras da Amazônia, o festival Matsury¹, o qual moveu mais de 15 mil pessoas em setembro do ano passado, com o objetivo de divulgar aos paraenses (que ainda não conhecem muito sobre os japoneses) os costumes e a cultura da comunidade nipônica. O evento contou com varias atrações (muitas delas internacionais) como cantores, grupos de dança, de teatro, entre outros. No entanto, para entender melhor a história da comunidade Nikkei na Amazônia, faz-se necessário também situar o momento histórico da imigração japonesa.
Basicamente o período de imigração dos japoneses no país iniciou-se no ano de 1920, período esse em que os japoneses chegam ao Brasil com esperança de melhores condições de vida, investindo primeiramente nas atividades de agricultura, principalmente na cidade de Tomé-Açu, considerada como uma das regiões mais produtivas em que os japoneses se concentram até hoje, o que os tornam responsáveis, em grande parte, pela economia do Estado. Sua principal produção era a pimenta-do-reino², além de destaque em outras áreas como mineração e na extração do setor madeireiro.
O principal fator que proporcionou o progresso traduziu-se em inovações na forma de plantio que foram estabelecidas pelos japoneses, as quais foram muito bem aceitas pelas pessoas que já habitavam a área antes deles, sem falar que essas técnicas contribuíam muito prevenção do meio ambiente, uma vez que limitavam as queimadas. As figuras históricas responsáveis pela entrada da pimenta-do-reino, a fortificação de sua produção entre outros elementos, foram: Makinossuke Ussui (que trouxe o produto para o país), Ryota Oyama Tsukata Uetsuka, (ex-deputado japonês que coordenou a imigração no Amazonas) e Hashiro Fukuhara (líder da chegada dos imigrantes no Pará)
Outra área que os japoneses se destacaram foi na fruticultura. Eles deram início a essa outra atividade por volta de 1990, sendo considerados precursores na produção de cupuaçu, açaí, mangostão e rambutã; alem de trazerem novas iguarias como noni, durian, mamão e havaí, entre outras. Apesar disso, a grande produção encontrou-se mesmo na pimenta-do-reino, que alcançou o lucro de US$78 milhões na exportação em 2007. Com a iniciativa dos japoneses em aprimorar a tecnologia agrícola, a produção sofreu grandes mudanças, incentivando os demais produtores a buscarem novas formas de aprimoramento no que tange ao processo de produção agrícola, mediante pesquisas cientificas que se iniciaram em 1970, criando assim uma solidificação no setor empresarial da agricultura.
O processo de imigração nipônica foi tão intensa que a terceira maior colônia de japoneses encontra-se no Pará, dividida entre as cidades de Tomé-Açu, Santa Izabel e Castanhal, cidades que sempre fazem eventos em certos períodos do ano para comemorar suas produções, as datas comemorativas do Japão, etc. Como exemplo tem-se o festival do sushi que acontece anualmente na cidade de Santa Izabel. Já na cidade de Tomé Açu ocorre o festival do Bom Odori, festival muito interessante em que no final da festividade, todos se reúnem em volta de uma torre para dançar como uma forma de celebração (que não tem hora para acabar) e agradecimento por um ótimo ano que passou, a dança sendo acompanhada pelo som do taiko.
Além dos festivais, a colônia japonesa apresenta musicas tradicionais como o enka, danças como o tradicional yosakoy soran (festivais de dança realizados freqüentemente no Japão); sua percussão de tambores japoneses (taiko), além de comidas típicas que normalmente são muito apreciadas também pelos paraenses.
O melhor de tudo é que se alguém tiver interesse em conhecer e mesmo em se envolver na cultura Nikkei, basta procurar a Associação Pan Amazônica, uma espécie de representante do Japão no Pará que organiza muitos eventos tradicionais no afã de aumentar os laços entre a cultura paraense e os costumes nipônicos..

1- http://madeinjapan.uol.com.br/2009/03/07/80-anos-de-imigracao-japonesa-na-amazonia/
2- http://9dadesanimes.blogspot.com/2009/09/para-celebra-80-anos-de-imigracao.html

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Ucrânia Revisited



Por Filipe Oliveira

Como internacionalista que sou sempre tive interesse pelo Leste Europeu, seja pela sua suntuosa trajetória histórica e cultural ou por sua importância estratégica para a Europa, e um dos países que mais me desperta atenção é a Ucrânia, que atualmente se encontra em um impasse político pela sucessão presidencial.
Classificada como pertencente aos países do Segundo Mundo por Parag Khanna (2008) *1, a Ucrânia sempre esteve no dilema quanto ao seu papel geopolítico: se seria a fronteira do império russo rumo a Europa (como a própria etimologia da palavra ‘Ucrânia’ em russo sugere *2) ou uma ponte entre a Europa e a Rússia.
Sua posição estratégica, longe de ajudar, tem sido uma sina para o povo ucraniano e parece se refletir em muitos aspectos daquele povo. Divida pelo rio Dnieper, este país carrega duas partes distintas dentro de um mesmo território: a porção católica e agrícola do oeste e ortodoxa e industrializada do leste.
Mesmo na parte mais desenvolvida do país ainda há uma forte carência de modernização industrial e melhoramento da infra-estrutura, que misturada com a alta concentração de renda compromete o desenvolvimento do país. Ademais, a aglutinação de investimentos estrangeiros na capital e grande atuação de bazares que comercializam através de escambos, a margem de toda e qualquer tributação, são alguns sintomas de uma economia fragilizada. Para se ter uma idéia, uma parte considerável da população depende da remessa de mais de 3 milhões de ucranianos que vivem na Europa Ocidental.
Por outro lado a fragilidade das instituições democráticas se reflete na política do país, que apresenta uma incongruência quanto aos objetivos e projetos políticos desenhados para a Ucrânia.
Leonid Kuchma que permaneceu no poder por 10 anos (1994-2004) manteve o que Khanna (2008) e Way (2005) chamam de Soft Autoritarism , bem ao modelo da Ásia Central, com restrições a liberdade de imprensa e algumas brechas democráticas.
Seu indicado à sucessão presidencial Viktor Yanukovich, pró-russo, concorreu com Viktor Yuchenko, líder da oposição. Durante as eleições Yuchenko foi envenenado com dioxina, porém conseguiu sobreviver ao atentado. A oposição acusou os russos de terem planejado o ato.
No auge do conflito entre as forças de segurança de Kuchma e manifestantes a favor de Yuchenko, a população saiu as ruas com bandeiras cor de laranja, assegurando deste modo a anulação do resultado pela Suprema Corte e a convocação de novas eleições . O evento ficou conhecido como Revolução Laranja.
No entanto o que parecia ser o alvorecer de um governo de mudança foi na realidade a continuação dos problemas enfrentados pelo país. Yuchenko colocou pessoas despreparadas para altos cargos no governo e não conseguiu realizar as reformas constitucionais no país. Para piorar, a situação econômica ucraniana se agravou, aprofundando ainda mais as contradições sociais do país.
Nas eleições realizadas no início deste ano a rejeição popular a Yuchenko se revelou nas urnas, uma vez que conseguiu apenas 5% dos votos. O segundo turno foi disputado pela empresária e pró-ocidental Yulia Tymochenko, que permaneceu no cargo de primeira-ministra até 2005, e pelo candidato pró-russo Viktor Yanukovich. Este ganhou por 49% contra 45,5% de Tymochenko.
Agora a ex-primeira ministra recorre à Suprema Corte contestando o resultado das eleições, que segundo ela foram fraudulentas. Apesar disso, a OSCE (Organização de Segurança e Cooperação na Europa),que também inclui União Européia, EUA e Rússia, alega transparência durante o processo eleitoral.
De todo modo, o novo governante terá importantes desafios durante sua gestão especialmente na dissolução de gabinetes paralelos, rompimento de monopólios, saneamento do sistema bancário, geração de empregos, dentre outros, para que o país possa sair da sombra dos russos e se beneficiar com uma possível entrada no bloco europeu e os subseqüentes investimentos da UE.
Ao que tudo parece, este ainda permanece sendo um sonho um tanto distante, uma vez que muitos países da comunidade européia temem perder grande parte dos seus subsídios agrícolas que seriam destinados à superação da enorme dependência agrícola ucraniana. Ademais a grande maioria da população deste país é jovem, o que pode proporcionar uma avalanche de trabalhadores da Ucrânia para os demais países do bloco. Por enquanto só nos resta aguardar pelos próximos capítulos e torcer para que os brados de glória e liberdade entoada no hino nacional ucraniano voltem a sorrir à nação dos Cossacos.



NOTAS
1.Khanna define os países de segundo mundo como Estados importantes geopoliticamente para o equilíbrio de poder entre as superpotências do século XXI, EUA, União Européia e China, e que possuem características distintas dos países desenvolvidos e subdesenvolvidos.
2.No idioma oficial Ucrânia significa “pátria” enquanto que na língua russa esta palavra significa “terra de fronteira” (KHANNA, 2008)

*Para ler mais sobre os países do Segundo Mundo leia “O Segundo Mundo” de Parag Khanna da Editora Intrínseca, 559 pgs.